POR FAVOR, NÃO INVALIDEM OS CASAIS SEM FILHOS

Flórence Diedrich

11 de maio de 2017

Psicologia
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         Fico pensando no tempo da monarquia, em que o papel da mulher era dar um herdeiro ao rei/príncipe/conde, para que assim houvesse a continuidade da linhagem e do poder. Quantas mulheres foram humilhadas, abandonadas, ou até mesmo assassinadas, por não terem conseguido cumprir esse papel?

            O valor da mulher estava atrelado a prole. Dentro desse contexto, a possibilidade de ter uma vida satisfatória e a ideia de felicidade, para uma mulher, estava exclusivamente vinculada a maternidade.

             Hoje em dia, pouco mudou. Ainda que de forma velada. As expectativas estão aí, pressionando a mulher ou o jovem casal sem filhos.

       Apesar de, na atualidade a mulher ter uma gama muito maior de fontes de satisfação e sentido na vida, a sociedade ainda se choca perante a revelação de uma mulher não querer ter filhos. Como se não estivesse "cumprindo seu papel". Como se os filhos fossem o único caminho possível (ou correto)...como se a mulher ou o casal não pudesse ter uma vida plena de sentido com outras realizações, como seus vínculos com amigos ou familiares, como seu trabalho, como sua liberdade para explorar o mundo...

      Basta ter passado do 30, estar em um relacionamento estável e ter uma condição relativamente estável de vida, que a pergunta mais frequente que se escuta é: "Quando vai vir um bebê?"

        Para a maioria das pessoas, não é fácil frustrar os demais, ainda mais quando os "demais" são amigos próximos e familiares, que fazem a bendita pergunta com brilho nos olhos e um coração cheio de expectativas e amor para receber o "pequeno serzinho".

            É emocionante ouvir que um amigo ou parente guardou o carrinho ou a roupinha do seu bebê para "o futuro amiguinho(a)". Que quer dividir conosco objetos que permearam momentos incriveis e de muito amor, da sua experiência parental. Que no coração deles, já exista espaço para essa criança que ainda nem foi concebida.

             Eles vivenciaram uma experiência fantástica e transformadora, com isso, querem que os que ainda "não sentiram isso", o sintam.

             Isso me faz lembrar das pessoas que vão para a igreja e isso traz um sentido tremendo pra suas vidas, com isso, querem a todo custo, evangelizar os entes queridos e dividir suas descobertas, fazendo convites incessantes para que possamos conhecer esse lugar. Com algumas pessoas que tiveram filhos, a dinâmica é parecida.

Dentro disso, já ouvi discursos como:

"Vocês não sabem o que é viver, até ter um filho"

"Depois de um filho que você saberá o que é amor e felicidade de verdade"

UAU, que carga para uma criança.

      Imagino o quanto seja incrível ter um filho, eu jamais invalidaria uma experiência tão grandiosa como a maternidade/paternidade. Porém, será justo invalidar a vida e as experiências de quem optou por não ter filhos?

           Aqueles que não tem o desejo de ter filhos, de forma não consciente, podem sentir que "tem algo errado consigo mesmos". Tem algo errado por serem felizes sem filhos, devem ser pessoas egoístas e egocêntricas por sentirem-se assim. Por ver um sentido incrível em suas vidas do jeito que está.

             Sim, acredito em uma vida esplêndida, cheia de amor e sentido, em uma família com filhos. Mas também penso que o mesmo possa existir, em um casal ou individuo que opta por não tê-los.

           Afinal, será que o amor não está em nós, enquanto fonte e canalizadores deste sentimento nas nossas experiências e diversas relações?

             Entendo que, quando vivenciamos algo especial e grandioso, seja natural e até honrável querer dividir isso com aqueles que amamos, esperar que nossos amigos ou parentes, também tenham essa experiência e vivam esse amor transformador. Porém precisamos dar espaço que esse desejo venha "de dentro", não de fora. E que se não vier, "está tudo bem", essa pessoa ainda pode saber o que é o amor e ter uma vida plena de sentido.

         O importante, é não nos fecharmos em "uma verdade", validar a pluralidade, a liberdade de escolha e as vivências singulares de cada ser.

           A "continuidade" da nossa existência pode vir de variadas formas... Acredito que existem muitos caminhos para vivenciarmos o amor, ter filhos é um deles, não o único.

Por: Psic. Flórence Diedrich



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